A questão 15 da prova de Ciências Humanas e suas Tecnologia do último ENEM foi a seguinte:

"A usina hidrelétrica de Belo Monte será construída no rio Xingu, no Pará (ainda espero que não). A usina será a terceira maior do mundo e a maior totalmente brasileira, com capacidade de 11,2 mil megawatts (informação equivocada: esse seria o valor do pico das chuvas, a produção média anual seria de menos da metade disso). Os índios do Xingu tomam a paisagem com seus cocares, arcos e flechas. Em Altamira, no Pará, agricultores fecharam estradas de uma região que será inundada pelas águas da usina".


Então, pergunta-se: "Os impasses, resistências e desafios associados à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte estão associados..."

1. Ao potencial hidrelétrico dos rios do norte e nordeste quando comparados às bacias hidrográficas das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país.
2. À necessidade de equilibrar e compatibilizar o investimento no crescimento do país com os esforços para a conservação ambiental.
3. À grande quantidade de recursos disponíveis para as obras e à escassez dos recursos direcionados para o pagamento pela desapropriação das terras.
4. Ao direito histórico dos indígenas à posse dessas terras e à ausência de reconhecimento desse direito por parte das empreiteiras.
5. Ao aproveitamento da mão-de-obra especializada disponível na região Norte e o interesse das construtoras na vinda de profissionais do Sudeste do país.



O gabarito indica que a resposta considerada certa é a “b”



Painel de 40 pesquisadores, das áreas de ciências sociais e ambientais, especialistas em impactos de barragens, produziu extenso e rico relatório sobre o projeto e os estudos ambientais da UHE Belo Monte. Tal relatório indica infinitos problemas nos estudos e explicita muitos dos dramáticos impactos. No que se refere ao potencial hidrelétrico, o relatório mostra que o potencial efetivo de geração será muito abaixo do anunciado, adotados pelos “especialistas do ENEM”, de 11,2 megawatts. Também mostra o relatório que os impactos vão muito além da desapropriação de terras, pois milhares de pessoas terão destruídas as bases de seus modos de vida e reprodução. Os indígenas da região já manifestaram repetidamente que rejeitam a construção da usina. A legislação ambiental tem sido permanentemente desrespeitada. A própria constituição foi desrespeitada. A Convenção OIT 169, da qual o Brasil é signatário, foi violada, uma vez que não foram ouvidas as populações indígenas atingidas. O que se pede não O direito histórico dos indígenas não vem sendo desrespeitado apenas pelas empreiteiras, mas, também, em primeiro lugar, pelo MME, ANEEL e pelo próprio Congresso Nacional..



Enfim, uma sucessão de erros inaceitáveis, que expressam a ignorância dos examinadores acerca de questão através da qual pretendem examinar o saber dos candidatos. Os examinadores, mandatados pelo poder de Estado que lhes foi outorgado pelo MEC, não se deram nem mesmo ao trabalho de lerem o que a imprensa nacional publicou a respeito. E não parecem informados que há muitas e complexas controvérsias a respeito do projeto em pauta para que a resposta possa ser obtida através de uma simplória, diria mesmo estúpida, listinha de 5 alternativas que se pretendem excluir umas às outras, como se não fosse possível um projeto acumular vários e concorrente problemas.



Um lixo em termos de exame e aferição de conhecimentos. Uma vergonha que expressa a transformação do ENEM em teste de fidelidade política ao governo e a sua política de destruição dos rios, das florestas, das populações ribeirinhas e indígenas do pais.



Venho solicitar ao colegas que o Consuni manifeste ao MEC sua inconformidade com a inclusão de questões e alternativas de respostas que desconhecem o intenso e complexo debate cientítico-acadêmico e, ademais, que diga respeito também a opções e conviccções políticas e religiosas, acolhendo como resposta certa aquela que é formulada pela propaganda oficial.

Saudações universitárias
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Prof. Carlos Vainer

IPPUR / UFRJ

Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional

Universidade Federal do Rio de Janeiro

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